Terça-feira, 24 de Março de 2009

A "venda" do Luiz

Quando criança, lá pras bandas da Viçosa, costumava, nos momentos de folga, a pescar no Rio Paraíba do Meio, no quintal de casa, incrustada na rua do Gurganema (por sorte, nunca peguei uma esquistossomose). O ritual começava com a procura pela isca. O quintal do “Basto Crente” tinha um solo massapé viçoso, onde os gôgos (minhocas) se escondiam. Enxada ao alto, força, e cova: os bichos, de aparência repugnante, vinham aos borbotões. Os apetrechos de pesca: vara, anzol, linha e chumbada eram conseguidos na venda de “seu” Luiz (de Gonzaga Lima), hoje com 81 anos, mas com a mesma aparência que o conheci.

Semana passada estive em Viçosa e resolvi visitar a venda de “seu” Luiz. Assim como o proprietário, o estabelecimento parece o mesmo, nada mudou: sandálias de couro, chapéus, cordas, peneira, enxada, foice, martelo, anzóis, chumbada, e uma infinidade de outros mangaios. Foi como voltar à infância! Luiz, muito atencioso, pousou para a foto. Católico fervoroso, contou que o nome de batismo foi uma homenagem que o pai dele fez a São Luiz de Gonzaga. Mora sozinho.

Luiz posa para a fotografia em sua venda


Quinta-feira, 19 de Março de 2009

No TRE, a coisa tá "braba"

Com Orlando Manso na presidência do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE/AL) a coisa fica "braba". Saiba por que, no blog do jornalista Célio Gomes: http://colunas.gazetaweb.globo.com/celiogomes/

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Por um fio 2

Depois da proveitosa entrevista com o colunista Sebastião Nery, em janeiro de 2008, enveredamos por um descontraído papo – que muito serviu para a elaboração da matéria – regado a um bom vinho chileno, cortesia do anfitrião Maurício Moreira, dono do aprazível sítio Belo dos Milagres, lá no endênico litoral de São Miguel dos Milagres. Em determinada parte da conversa, Moreira indagou ao mestre Nery qual o conselho que ele daria a um jovem repórter. E o experiente jornalista mandou:

- Fique atento a tudo. Se observar um burro bravo passar correndo, a toda velocidade, corra atrás dele, pois ele pode ter derrubado o presidente da República, disse o tarimbado jornalista baiano.

Foi movido pelo faro jornalístico e pelo conselho do mestre Nery que despertamos – eu e o repórter fotográfico Carlos Rosa – para aquele corre-corre no distrito de São Bento, em Maragogi, no fim da manhã de terça-feira 10. Populares atravessam a pista como bólidos indomáveis e atarantados. Seguimos as pernas aflitas e elas nos levaram à notícia: um homem, tirador de coco, pendurado por um fio, ou melhor, pela peia. E antes que você ache estranho, vou logo explicando: peia é a corda – revestida de borracha - que serve de instrumento para que o profissional escale o coqueiro e o desfrute. Uma para cada perna.

São bravos profissionais esses cabras-de-peia, como são popularmente conhecidos os tiradores de coco. Além das agruras e perigos da profissão, trabalham na informalidade, sem carteira assinada. Mas, voltemos ao tirador de coco pendurado. Ele estava em seu momento de folga e resolveu tomar uns goles a mais de aguardente e, depois, subir no coqueiro. Resultado: se desequilibrou, perdeu uma das cordas e ficou dependurado pela perna direita, literalmente por um fio. Mais tarde, depois de duas horas vendo o mundo de cabeça para baixo, foi resgatado pelos amigos com a ajuda dos bombeiros (veja o vídeo). A história completa você confere na edição da Gazeta de Alagoas desta quarta-feira, 11 de março, com fotos de Carlos Rosa.
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"Comida de panela" é tudo de bom

Luciano "Oião" traça o prato no restaurante da Nivalda
Depois de uma noitada, apreciando uma cerveja gelada, na companhia de bons amigos, curtido aquele show musical, bate aquela fome do tamanho do mundo. E a “saideira” acaba, muitas vezes, na lanchonete. Um cachorro-quente, um passaport, como queira, são boas opções para forrar o estômago. Outros preferem pizza, um churrasquinho de gato, ou coisa que o valha. Em União dos Palmares, a turma gosta mesmo é de “comida de panela”, como diz minha mãe ao se referir à comida caseira.

Com o dia já raiando, fui convidado pelos amigos Bal e Luciano Rocha, mais conhecido como Oião (não me pergunte por que), a fazer um “lanche” no Restaurante da Nivalda, depois de um show de forró daqueles na festa da padroeira, Santa Maria Madalena, em União dos Palmares. O recinto fica na “cabeça da ponte” do Rio Mundaú, no caminho para a Serra da Barriga. Uma robusta senhora, de avental preto, nos recebeu muito bem. Era Nivalda, uma mestra na arte de cozinhar. Com largo sorriso, nos serviu um café da manhã reforçado: inhame, batata doce, cuscuz, sarapatel, galinha de capoeira e café preto, pra cortar a ressaca.

Foi de lamber “os beiço” e repetir. O restaurante estava apinhado. Entre trabalhadores que seguiam para lida, a maioria ali era formada por jovens saídos da festa da padroeira. Se você costuma comer sanduíche ou pizza depois de uma noitada, esqueça. Em União o barato e gostoso é saborear comida de panela... da Nivalda.
Comida caseira é a pedida em União dos Palmares

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

É pau, é pedra, é Porto de Pedras

Um dos feridos na briga pelo poder
Porto de Pedras: uma cidade dividida

Que o município de Porto de Pedras, com uma área de 266 metros quadrados e uma população estimada de 10 mil habitantes, é pequeno, todos já sabem. Mas, o lugar fica ainda menor para os partidários de Amaro Júnior (PTB), o “Boi Lambão”, e Ednaldo Costa (PDT). Os dois vão disputar a eleição suplementar para prefeito no próximo dia 15.

Os eleitores, no entanto, vêm se digladiando ao longo do período pré-eleitoral. Garrafadas, socos, tapas e pontapés não faltam. Até bomba de fabricação caseira já foi detonada sobre um carro de som. Neste final de semana, um homem teve o braço fraturado e um deficiente físico foi atingido por uma moto em mais uma “batalha”.

A Polícia Civil instaurou inquérito e já indiciou uma pessoa. A PM promete reforçar a segurança com 70 homens. O juiz eleitoral Gustavo Souza Lima baixou portaria para garantir a ordem e a lisura do pleito. A Polícia Federal também estará em Porto de Pedras. É torcer para que o momento cívico da eleição não se transforme em barbárie.

Terça-feira, 3 de Março de 2009

Reforma agrária, devastação e venda de lotes

Mata ciliar é calcinada
Devastação em assentamento de MaragogiImagens (Carlos Rosa)

O programa Fantástico da Rede Globo mostrou no domingo 1° de março reportagem sobre um brasileiro que mora na Inglaterra e pôs a venda um lote do Incra destinado à reforma agrária. Por R$ 300 mil, ele quer vender a propriedade, que também é um pedaço da Amazônia. (Veja reportagem completa no link: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1023223-15605,00TERRA+DO+INCRA+E+COLOCADA+A+VENDA+NA+INTERNET.html ).

A fazenda que está sendo vendida ilegalmente tem dois quilômetros quadrados e fica no município de Novo Mundo, no norte de Mato Grosso. Vale lembrar que vender lote da reforma agrária é crime. Trata-se de terra pública. O vendedor fica definitivamente fora no Plano Nacional de Reforma Agrária e o comprador perde o investimento.

No assentamento Barra Norte, além da venda dos lotes, o que chama a atenção é o tamanho do desmatamento neste pedaço da Amazônia, diz a reportagem do Fantástico. A área considerada de preservação permanente. Deveria existir na área uma floresta, mas o que há é um cemitério de árvores, consequência da exploração descontrolada. A venda de lotes não é uma novidade em Alagoas. Como jornalista, constatei e denunciei a prática ilegal em Viçosa, União dos Palmares, Murici, Branquinha e Maragogi.

Outro crime comum é a devastação das áreas destinadas à reforma agrária. Na edição de 15 de fevereiro da Gazeta de Alagoas mostramos (eu e o repórter fotográfico Carlos Rosa) que a derrubada de árvores nativas na região Norte do Estado segue no ritmo da motosserra: acelerado. A concessão de licenças ambientais feitas pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) a esses núcleos rurais chega a ser um contra-senso.

A pressão dos movimentos sociais soou mais forte e as licenças saíram a toque de caixa. Ou saiam ou os recursos federais – créditos aos assentados - ficariam retidos. E aí você já sabe: os sem-terra viram o Estado de cabeça para baixo, fecham rodovias e ocupam prédios públicos.

Mas, a natureza não pode pagar pela ingerência oficial. No mais, assentamentos estão se tornando verdadeiras favelas rurais, sem energia elétrica, saneamento e abastecimento de água, sem educação, sem saúde. Tudo isso favorece o comércio ilegal de lotes e de madeira nativa, muitas vezes reduzida a carvão.

Não sou contra a reforma agrária. É bom que fique bem claro. Acredito que se trata de uma das formas mais eficazes de distribuir renda e promover a tão propalada justiça social. Mas, do jeito que vem sendo conduzida pelo Estado (de Direito), corre-se o risco de se promover uma contra-reforma-agrária: as terras voltam às mãos dos latifundiários que as transformam em chácaras e a natureza padece.

Os jornalistas e a crise mundial

Nas primeiras semanas deste ano, 102 jornalistas perderam o emprego em todo país. Todos, segundo as empresas, em função dos efeitos da crise econômica internacional. Sob o mesmo argumento, a negativa patronal de repor perdas salariais, assegurar ganhos reais e melhores condições de trabalho se verifica em alguns processos negociais. Diante deste quadro, a Federação Nacional dos Jornalistas exorta a categoria e seus Sindicatos a intensificarem a mobilização e iniciativas de combate às formas de precarização das relações de trabalho e flexibilização dos contratos.

Temos que rejeitar e denunciar a tentativa patronal de transferir para os trabalhadores o ônus de uma crise – que efetivamente ainda não atingiu os veículos de comunicação - da qual não são responsáveis.O discurso da crise econômica mundial é utilizado como biombo para encobrir gestões incompetentes nos veículos de comunicação, perspectivas que colocam a informação como produto meramente mercantil e opções empresariais calcadas em concepções neoliberais de ajustamento às crises.

Tais opções ignoram os problemas sociais decorrentes da demissão e arrocho salarial dos trabalhadores, bem como o direito da sociedade à informação com qualidade.No Brasil, o ritmo de expansão da economia nos últimos quatro ou cinco anos é quase duas vezes maior do que o verificado na década de 1990. Nesse mesmo período o setor de comunicação - leia-se os donos dos veículos - experimentou um processo de maior concentração de capital e alta prosperidade.

Apenas em 2008, este mesmo setor (rádio, jornais, TVs, internet) cresceu 15,5%, em relação ao ano anterior.A recessão golpeou a maior economia do planeta, nos EUA, bateu nos 27 países da União Européia, na segunda maior economia do mundo, no Japão, e agora ameaça seriamente a terceira maior, a China. Tudo isso pode significar que será superada a estimativa de um desemprego global de 50 milhões de pessoas, feita há alguns meses. Sabe-se que grande parte dos efeitos das crises econômicas são resultados muito mais do medo da crise, do que dela própria.

Sabe-se, também, que os efeitos no Brasil ainda não alcançaram proporções catastróficas e, muito provavelmente, nem cheguem perto. Por essa razão, a FENAJ denúncia a prática de alguns segmentos da mídia na manipulação de números e dados da realidade, tumultuando deliberadamente o já tumultuado ambiente social.Deve-se execrar também o movimento desses mesmos segmentos midiáticos e lideranças políticas de antecipar de forma ilegítima o processo sucessório de 2010, valorizando interesses menores e absolutamente particulares.

O mesmo Estado, ideologicamente combatido de forma sistemática nas últimas décadas, está sendo convocado a amparar com investimentos públicos sem precedentes na história bancos e setores industriais com problemas de fluxo de caixa ou à beira da falência. É correto que o Estado exerça um papel regulador neste momento, no entanto recursos de origem pública devem ser empregados criteriosamente, com transparência e, principalmente, exigindo contrapartidas sociais - especialmente o compromisso de manter o nível de emprego.

No entendimento da FENAJ, por exemplo, não é justo que os grupos de comunicação que promoveram demissão em massa, continuem usufruindo de verbas de publicidade e financiamentos da União, estados e municípios.Esta crise é sistêmica e estrutural do capitalismo. Não compete aos trabalhadores gerir a crise econômica internacional, mas sim refletir e lutar por sua superação. Para tanto, é preciso que os jornalistas tenham uma postura ativa de denúncia da alternativa patronal de repassar o ônus da crise para a classe trabalhadora e de resistirmos aos processos de demissão e precarização.Fundamentalmente, é preciso que os jornalistas reforcem os seus laços coletivos e suas organizações sindicais. Só assim vislumbraremos perspectivas de vitória nos espaços de disputa tanto na relação direta com o patrão, quanto nas esferas do judiciário, legislativo e executivo.

Por último, reconhecendo a gravidade do momento, a FENAJ faz um convite público para as entidades representativas do empresariado da comunicação - em especial a ANJ, Abert e Aner - para que participem de um colóquio mediado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com o objetivo de debater a crise e, principalmente, encontrar soluções que preservem o emprego e respeitem os direitos dos trabalhadores.Brasília, 02 março de 2009.

Fonte: Diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ